Pausa para um papo sério. Ainda hoje (quase 4 meses depois) não sei como as coisas aconteceram, isto é, como vim parar aqui? O que eu quero dizer é o seguinte: sempre me imaginei na Itália, a estudo ou a trabalho (não é à toa que estudei italiano tanto tempo!) mas me parecia algo muito distante e sempre fazia parte de um projeto futuro. Mesmo embarcando do Rio pra cá ou quando cheguei, e ainda hoje, não me parecia (parece) nada real. Várias vezes acordava pensando que era um sonho (sério! rsrsrs) e tinha que me perguntar onde estava... Acontece que ultimamente tenho notado a reação das pessoas às quais eu me apresento e já ouvi muita coisa estranha, todas elas no sentido "você está doida!?". Trocar o Brasil, terra em pleno progresso, a maior potência da América do Sul, por um país como a Itália, em completa decadência??? Rio de Janeiro, terra tropical, clima agradável, pessoas alegres e felizes, onde há festa, carnaval e praia por uma cidade melancólica, fria, sombria, com pessoas "de Mrd@" ?! [Juro, essas palavras já ouvi muito desde que cheguei.] Em suma, me perguntam o que "diabos" estou fazendo aqui!? Se estou gostando? Se tenho vontade de ficar? E quando respondo que gosto sim, ficam impressionados e não conseguem me entender. A parte norte da bota (genovês em especial) tem fama de ser um povo mais fechado (e, segundo eu, rabugento) enquanto que a parte sul, mais receptiva e acolhedora. A maioria daqueles à quem, por uma razão ou outra, explico parte da minha pesquisa, não entende como posso estudar um porto que, para eles, não serve de exemplo, mesmo tendo sido ele (o porto), responsável peloo acúmulo de tanta riqueza um dia já pertencida à cidade. Imagino, pois, que o porto também figure como um símbolo da decadência lentamente sofrida ao longo dos últimos séculos e dedicam a ele a razão da cidade se encontrar como tal: em crise política, social e econômica. Cheguei ao cúmulo de ouvir uma "tremenda" asneira (como diria minha coinquilina), que se referia ao fato de eu estar aqui para "copiarmos" o modelo italiano a fim de aplicá-lo no Brasil. (Como se fosse possível copiar os padrões de urbanismo de uma cidade pra outra, como que carimbando-os independentemente de suas peculiaridades - o que, embora já tenhamos visto em outros lugares, sabemos que isso dá péssimos resultados; como se eu tivesse o poder de fazê-lo; e o pior: como se eu o quisesse...) Fico bandida com esses comentários! Quanta ignorância! Quanta prepotência! Quanto sub-julgamento! Quanta contradição! Enfim! Contudo, afora esse juízo de valor (se serve ou não como exemplo à nós ou a qualquer outro lugar, não interessa...), mas considerando a hipótese de que eu um dia concorde com eles (o que acho muito difícil), me lembro de uma coisa que meu pai sempre me disse: "minha filha, até o mal exemplo é um bom exemplo." E hoje, pensando bem, acho que esse deveria ser o lema do urbanismo contemporâneo. Talvez esteja aí a resposta para toda minha pesquisa.
2 Responses
  1. Altas ponderações MArlise...mas acho que estás no caminho certo. E a minha orientadora também me falou que nos EUA a imagem do Brasil, como um vigoroso gigante do continente americano, próspero e feliz está na mente de todos os que lá moram...inclusive me falou que a imagem da Dilma lá é mais bem quista (se é que é assim que se escreve isso, o que duvido) do que o do próprio Obama!! que coisa né? engraçado como o gramado do vizinho é sempre mais verde do que o nosso, não é mesmo? acho que vc tendo esta experiencia extra-territorial, este exílio voluntario é que consegue avaliar e repensar estas amarras que nos prendem ao nosso mundinho, que parece tão único e sacal visto de dentro das mesmas paisagens tão rotineiras que nem mais nos estimulam visualmente...beijocas


  2. Mardi Says:

    É Moniquinha, acho que a expressão do gramado vai bem nesse caso... Tenho essa mesma sensação! Por outro lado vejo que essa "ideia" está sendo sustentada e divulgada abundantemente pois (acabo de ler algo que eu já suspeitava) a imigração tem aumentado (e eu diria, incontrolavelmente) no Brasil. Confesso que essa súbita mudança (de Brasil, "país de migração" dos anos 90 e 2000; para o Brasil, "terra das oportunidades" de 2011) me deu um "medinho" de como vamos encará-la.