Entrando no trem (no trajeto Livorno-Gênova), vi que as cabines todas estavam ocupadas. Funciona assim: ao longo do trem se distribuem cabines, uma atrás da outra, com seis poltronas sendo que três acentos ficam de frente para outros três. Eram famílias, grupos de adolescentes, rapazes, vovozinhos e eu, à procura de paz e tranquilidade (porque eu realmente precisava dormir), inventei de sentar na cabine onde havia duas meninas, sendo que uma delas era freira. (Até aí, tudo bem!) A outra desceu logo - na estação seguinte - e ficamos por uma ou duas estações "tranquilas", eu e a freira. Estava quente, o ar condicionado não dava conta (pra variar), tentei abrir a janela, estava emperrada, trocamos algumas palavras (descobri que ela é indiana e ela, que eu sou brasileira), troquei de lugar, nos acomodamos... Depois desses minutos iniciais, eu já estava sem o tênis, com as pernas pra cima, com fones de ouvido, escutando uma musiquinha (como pedi a Deus), entrou na "nossa" cabine um senhor (de mais ou menos 50 anos) loiro, alto, careca, cabeludo e desdentado (!) e, depois de MUITO circular (num espaço de praticamente 2m²!!! Como ele conseguiu caminhar tanto ali dentro!?), pediu que eu tirasse minhas pernas para que ele pudesse sentar na minha frente. Eu, pega de surpresa, acabei atendendo o pedido, tirei e ali ele se sentou. Acontece que não só ele é grande como minhas pernas também! Resultado: batemos os joelhos algumas vezes enquanto ele tentava se organizar, entre a mochila e os embrulhos que carregava até que ele me pediu desculpas e se justificou dizendo que precisava da mesinha (que só tem nas janelas) para apoiar a comida, pois queria "mangiare". A freira (esperta!), pulou para a primeira poltrona, na minha frente, perto da porta, se afastando dele. Eu, não aguentei tanta "bateção" de perna e inquietude e acabei pulando para a poltrona do meio, na posição oposta à dos dois, de frente para eles. Fechei os olhos, tentei dormir com o fone no ouvido para disfarçar o barulho que ele fazia, falando sozinho, mexendo-se, abrindo vários fechos da mochila e sacolas plásticas. Quando estava quase abstraindo a sua presença, ele abriu uma PET de refrigerante e o gás deu um banho em meus pés! (aff!!!! Contei até 100!) Quando me dei por conta, estava um cheiro de FRANGO ASSADO na cabine inteira! (Caramba, fiquei pensando, deve ter sido castigo por eu ter comido muito cheetos quando eu era adolescente!!! Só pode!) Imaginem vocês num trem sem circulação, cheirando a frango (e escutando aqueles barulhos do "gentil" senhor desdentado comendo), sem ar condicionado, sentados de costas para o sentido de movimentação: dito e feito, comecei a passar mal! À essas alturas, o celular já estava sem bateria, a freira já tinha falado com todas as amigas nos seus (dois!) celulares e o cara continuava comendo (e oferecendo uma imitação barata de batata rufles)! Ele estendeu, inclusive, uma toalhinha (de rosto mesmo, felpuda!!!) sobre a mesa, tal era o banquete! A freira indiana só me olhava e esboçava um riso. A fiscal ainda tentou (ou não! rsrs) resolver o problema do calor fechando as janelas para que o ar pudesse refrigerar mas foi sem sucesso e logo voltou a abri-las. Nem preciso dizer que o cheiro se impregnou, né!? Levantei, dei uma olhada nas outras cabines, mas estavam todas cheias. A situação foi ficando pior a cada minuto porque eu já tinha perdido minha paciência. Não conseguia dormir por causa do calor, do cheiro e do cara, que bufava, pendurado no pouquinho de ar que saía do ar condicionado, depois do frango, da batata e do pêssego que ele comeu. Assim foi mais ou menos uma hora e meia de viagem onde eu aprendi que tem horas que não adianta se fazer de morta nem ser boazinha (mesmo que na frente de uma freira, tem que reclamar!) e que mesmo que a freira tenha dois (ou mais celulares) não há linha direta com Ele (O todo poderoso) e a situação não vai se resolver por si só, pelo contrário, pode até piorar!